Bombeiros enfrentam, na mata, cansaço, adversidades e animais selvagens relato

O tenente Rodrigo Fonseca, do Corpo de Bombeiros de Colíder (a 633 km de Cuiabá), comandou as buscas ao piloto Maicon Semencio Esteves, de 27 anos, que sobreviveu a queda de um avião agrícola e foi resgatado nesta quarta (7), em meio à selva em Peixoto de Azevedo, (a 692 km de Cuiabá). No destacamento de Colíder atuam 12 bombeiros em escala e 50% do efetivo foi usado nas buscas por Maicon. A distância até Peixoto é de 112 km.

O piloto segue se recuperando no Hospital Regional de Peixoto e o tenente Fonseca, que ficou por 3 dias na mata comandando as buscas, por meio da assessoria de imprensa, relata o trabalho realizado. Ele lamentou a falta de informação devido às dificuldades e o acionamento tardio dos bombeiros.

Segundo o militar, o Corpo de Bombeiros só foi acionada às 11h de segunda (5), dois dias após a queda do avião e no mesmo dia, às 14h30 ele e mais três militares iniciaram as buscas, sem sucesso. No segundo dia de trabalho, os bombeiros caminharam por 4 e 5 km em linha reta na mata fechada, sem serem vistos por PMs e voluntários que montaram uma força-tarefa para procurar pelo piloto.

No dia seguinte, chegou reforço de dois bombeiros de Sorriso (a 398 km de Cuiabá), com o cão de busca. E com cerca de 30 voluntários, munidos de facão e com apoio dos militares foi realizado um “pente fino” na área, quando finalmente, localizaram o piloto. “Para proteger o rosto dos espinhos o piloto ficou com capacete de voo, isso dificultou a percepção dos fogos e dos chamados que foram feitos durante toda a terça, o dia que os bombeiros mais fizeram buscas e que ficaram mais tempo na mata”, diz o tenente.

“Os bombeiros, durante a busca, se feriram em urtigas e espinhos, ficaram com carrapatos presos à pele e viram um grupo de queixadas (porcos do mato) agressivo. Eles iam dormir à meia-noite e estavam na mata assim que o sol nascia”, afirma ao destacar o empenho da equipe.

Lei ao relato na íntegra:

O acidente aconteceu no sábado. O piloto vinha com o avião baixo e, no rasante, possivelmente por pane seca, caiu. Na queda se iniciou um incêndio e na saída às pressas, queimou braços mãos e face. Usando o celular, ele viu a estrada que estava perto, mas a bússola indicava um caminho reto pela floresta. Quando tentou caminhar pela floresta encontrou dificuldade porque é impossível fazer o deslocamento em linha reta, já que é preciso fazer curvas, contornar árvores e cipós. Nessas voltas ele se perdeu, não encontrou a estrada e andou muito mais do que esperava andar.

O acidente foi testemunhado por um agricultor que estava mais ou menos 500 metros do local da queda, arando a terra. Ele viu o momento em que avião desceu rapidamente e não subiu. O trabalhador foi até uma fazenda próxima e avisou na sede para chamar o socorro. Na segunda (5) foram vistos galhos quebrados por pessoas que começaram as buscas e pelos dois PMs. Os PMs encontraram a porta do avião aberta e um canivete a alguns metros da aeronave, o que indicava o deslocamento do piloto.

O chamado via Ciosp ao Corpo de Bombeiros só aconteceu às 11 horas da manhã da segunda (5). Até esse momento o CBM ainda não tinha sido acionado. No mesmo dia, já às 14h30 CBM de Colíder, com os três militares Ten Bm Fonseca, Sgt Veloso e Sd Evaristo estavam iniciando as buscas. Todo deslocamento é dificultado pela distância de Colíder até o distrito de União do Norte, até o local da queda do avião e do local do avião até dentro da floresta.

Na terça (6) de manhã os bombeiros retomaram as buscas, caminharam entre 4 e 5 km em linha reta na mata fechada, mas no total isso significa uma distância muito maior. Durante toda terça os bombeiros ficaram dentro da floresta, não saíram, não foram vistos pelos policiais militares nem pelas pessoas das fazendas. Gritaram e soltaram fogos na esperança de que o piloto respondesse.

Na quarta (7) de manhã cedo chegaram os bombeiros de Sorriso, com o cão de busca. Mas na mesma manhã da quarta o CBM coordenou um grupo de 30 trabalhadores da fazenda São João. O gerente da fazenda destacou os homens, munidos de facões para o apoio aos bombeiros. Com esse reforço o CBM coordenou uma linha de busca, o pente fino, assim encontraram o piloto próximo a um córrego. Depois de caminhar por muito tempo, o piloto parou nesse local e ficou bebendo água. Durante os quatro dias ele bebeu água, mas estava muito debilitado pelas queimaduras, pelos arranhões causados por espinhos na mata e por machucados no pé de tanto caminhar.

Para proteger o rosto dos espinhos o piloto ficou com capacete de voo, isso dificultou a percepção dos fogos e dos chamados que foram feitos durante toda a terça, o dia que os bombeiros mais fizeram buscas e que ficaram mais tempo na mata. Quando encontraram o piloto, cansado sem condições de caminhar mais, devido aos ferimentos, tinha feridas abertas e insetos causando mais ferimentos na pele. Ele comeu somente as bolachas que tinha consigo, durante todo esse tempo. A 200 metros do local em que ele foi encontrado havia uma clareira para onde ele foi transportado em uma maca improvisada.

Nesse local foi onde o veículo chegou, uma caminhonete particular, que o transportou até o distrito de União do Norte. Lá uma unidade de resgate do município de Peixoto de Azevedo fez os atendimentos, fez os primeiros socorros nos ferimentos e aplicou soro.

Os bombeiros durante a busca se feriram em urtigas e espinhos, ficaram com carrapatos presos à pele e viram um grupo de queixadas (porcos do mato) agressivo. Eles iam dormir à meia-noite e estavam na mata assim que o sol nascia.

Fonte:RDNews/Alcione dos Anjos