“Para matar, vocês são rápidos’: a tensa reunião em que a Vale recusou pedidos de vítimas de Brumadinho

Gritos, lágrimas, trocas de ofensas e pedidos de reforço policial marcaram a assembleia em que representantes da Vale se recusaram, nesta terça-feira, a aceitar os pedidos de uma das principais comunidades afetadas pela lama da barragem da mineradora em Brumadinho (MG).

Mais de 400 pessoas que perderam parentes, casas, empregos, documentos e objetos pessoais acompanharam a reunião por quase quatro horas sob uma tenda no bairro do Parque da Cachoeira. Eles esperavam que a mineradora trouxesse respostas para uma série de demandas de urgência elaboradas por membros da comunidade e representantes de órgãos como o Ministério Público, a Defensoria Pública, igrejas e movimentos sociais.
Enquanto bebês choravam no colo de mães que não tinham onde se sentar (a mineradora disponibilizou cadeiras em número bem inferior ao de participantes) e idosos caminhavam com dificuldade pelo terreno de terra batida, três funcionários da Vale – Edvaldo Braga, Vítor Libânio e Humberto Pinheiro – diziam que “não tinham autonomia” para responder aos pedidos.
“Não temos condições de assumir responsabilidade sobre algo que não temos conhecimento. Precisamos entender a extensão deste problema. Ainda não temos informações suficientes para responder a estas solicitações”, repetiam os representantes da mineradora à plateia, 12 dias após a ruptura da barragem que deixou, segundo o corpo de bombeiros, 122 mortos já identificados, 20 mortos sem identificação 194 pessoas desaparecidas e 103 desabrigadas.

Muitos moradores choravam ao ouvir as palavras dos funcionários da Vale. Na mesa que reunia as autoridades, os principais embates aconteceram entre o promotor do Ministério Público estadual André Sperling e Edvaldo Braga, executivo designado pela mineradora como principal porta-voz no bairro.

“Parem de picaretagem”, disse Sperling, aplaudido pelos moradores. “Não mintam e não usem respostas fáceis.”

Braga, de outro lado, dizia que já havia colocado a posição da empresa e pararia de repeti-la. “Lamento”, repetia.

O representante da mineradora chegou a dizer que “a Vale não tem nenhuma credibilidade, mas está trabalhando para reverter isso”.

‘Agora vou viver como?’
Os atingidos pela tragédia e membros do poder público pediam que a mineradora assumisse as dívidas de camponeses com financiamentos para plantações destruídas pela lama e pagamentos mensais até que as indenizações sejam determinadas pela Justiça.

O pedido prevê um salário mínimo para moradores adultos, meio salário mínimo para adolescentes entre 14 e 18 anos e 25% do salário mínimo para crianças.

A demanda coletiva apresentada à mineradora também inclui a doação de R$ 5 mil para as famílias que vivem no Parque da Cachoeira.

“Perdi o emprego, agora vou viver como?”, gritou um morador da plateia ao ouvir que a empresa não atenderia aos pedidos.
“Vocês mataram meu irmão em 10 segundos e agora vão esperar quantos meses para amenizar o que minha mãe está sentindo?”, disse uma senhora, soluçando.

“Para matar vocês são rápidos”, disse outra mulher, amparada por colegas.

“Em Mariana foi igualzinho”, completou, em referência à ruptura da barragem de Fundão, em 2015, quando 50 milhões de metros cúbicos de restos de mineração e produtos químicos foram lançados sobre comunidades e atingiram o rio Doce, chegando até o oceano Atlântico.

Quase duas semanas depois da ruptura da barragem, a maioria dos presentes está morando nas casas de amigos e parentes. Esta é a terceira reunião entre moradores e membros da empresa – em nenhuma delas houve consenso sobre as reivindicações.

Fonte: BBC Brasil